Brasil e EUA retomam negociações para reduzir impacto do “tarifaço”
Reunião entre os dois países busca ampliar produtos livres das sobretaxas e abrir caminho para uma possível redução das tarifas impostas por Washington
Lula falou com Trum por telefone no dia 21 de agosto / .Foto : Ricardo Stuckert / PR / CP
Brasil e Estados Unidos retomam nesta segunda-feira (31) as negociações comerciais para tentar reduzir os impactos das novas tarifas impostas pelo governo norte-americano sobre produtos brasileiros. A reunião ocorre por videoconferência, às 14h30, no horário de Maceió, após o contato entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.
As conversas serão conduzidas pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e pelo representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer. Neste primeiro momento, a principal intenção do governo brasileiro é ampliar a lista de produtos que ficarão livres das sobretaxas.
O que é o tarifaço?O chamado “tarifaço” corresponde às tarifas adicionais aplicadas pelos Estados Unidos sobre produtos importados do Brasil. Uma das medidas acrescentou 25% a determinados produtos brasileiros, enquanto outra estabeleceu uma sobretaxa de 12,5% dentro de uma política comercial norte-americana que atingiu diversos países.
Quando as duas cobranças incidem sobre o mesmo produto, a tarifa adicional pode chegar a 37,5%, aumentando o custo das mercadorias brasileiras no mercado norte-americano e podendo reduzir a competitividade dos exportadores.
A tarifa de 25% foi justificada pelo governo Trump a partir de uma investigação que apontou supostas práticas comerciais consideradas desleais pelo governo norte-americano, envolvendo temas como comércio digital, Pix, propriedade intelectual, etanol, tarifas preferenciais, combate à corrupção e desmatamento.
Já a sobretaxa de 12,5% foi incluída em uma medida mais ampla adotada pelos Estados Unidos contra dezenas de economias, sob a justificativa de combater a entrada de produtos relacionados ao trabalho forçado.
O governo brasileiro, entretanto, contesta as justificativas apresentadas por Washington e considera que parte das medidas possui motivação política e comercial.
O que o Brasil quer?A estratégia brasileira nesta etapa é buscar a ampliação das exceções, retirando mais produtos da lista atingida pelas sobretaxas. Em um segundo momento, o governo pretende avançar para uma negociação que possa resultar na redução ou até na retirada das tarifas adicionais.
Não há, porém, garantia de que as negociações resultarão imediatamente em uma redução das tarifas.
O governo brasileiro também defende que as relações comerciais entre os dois países sejam conduzidas por meio de negociação e reciprocidade, e não por medidas unilaterais.
O impacto é significativo. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, cerca de 23,1% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos estão sujeitas às duas novas medidas, representando aproximadamente US$ 6,6 bilhões em mercadorias, com base nos dados comerciais de 2024.
Entre os produtos atingidos estão máquinas, equipamentos, calçados, móveis, confecções, gorduras, óleos e diferentes tipos de madeira. O açúcar está entre os produtos submetidos à sobretaxa de 25%.
E o que os Estados Unidos querem?Do lado norte-americano, o governo Trump busca defender seus interesses comerciais e pressionar o Brasil a ampliar o acesso de produtos e empresas dos Estados Unidos ao mercado brasileiro.
Washington também sustenta que as medidas são necessárias para corrigir práticas comerciais que considera prejudiciais aos interesses norte-americanos.
O governo brasileiro, por sua vez, afirma que os Estados Unidos têm apresentado demandas de abertura de mercado sem oferecer contrapartidas equivalentes.
A retomada do diálogo representa, portanto, uma tentativa de substituir o confronto tarifário pela negociação direta entre os dois governos.
Impacto para AlagoasA disputa comercial também interessa diretamente a Alagoas, principalmente por causa do setor sucroenergético. O açúcar está entre os produtos brasileiros atingidos por uma das sobretaxas, o que pode afetar as condições de competitividade do produto alagoano no mercado norte-americano.
Uma eventual ampliação da lista de produtos isentos poderia beneficiar diretamente setores exportadores brasileiros e estaduais.
Apesar do conflito comercial, parte significativa das exportações brasileiras continua fora das novas sobretaxas. Café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas, ferro fundido e grande parte da celulose permanecem sem as duas cobranças adicionais.
A retomada das negociações ocorre, portanto, em um cenário de pressão dos dois lados. O Brasil tenta reduzir os prejuízos provocados pelas tarifas e ampliar as exceções, enquanto os Estados Unidos buscam defender seus interesses comerciais e pressionar por mudanças nas relações econômicas com o país.
O resultado das conversas poderá definir se o tarifaço será ampliado, reduzido ou substituído por um novo entendimento comercial entre Brasília e Washington.