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Criar questões, corrigir provas e mais: o que muitas escolas já fazem com IA e você não sabe

29/08/2025 15h29 - Atualizado há 13 horas
Criar questões, corrigir provas e mais: o que muitas escolas já fazem com IA e você não sabe
Estadão

A cada ano, o preparo dos estudantes do ensino médio para o Enem envolve um treino muito intenso da redação, que tem um peso relevante na nota do candidato. Na reta final, o recomendado pelos professores é escrever pelo menos três textos por semana para praticar diferentes temas e o tão falado repertório.

 

“Eu via muito aqui, quando chegava essa época, os professores com aquela pilha para corrigir, os alunos que deixaram para a última hora desesperados para saber se está adequado”, conta Cíntia Pinho, professora do Centro Paula Souza da Etec de Ribeirão Pires.

Eram tantas queixas que solucionar a demanda de correção das redações se transformou em tema da pesquisa de mestrado de Cíntia, e o Centro Paula Souza se tornou seu laboratório. Ela desenvolveu o Cria, uma ferramenta de inteligência artificial treinada pelas marcações feitas pelos professores nas redações de milhares de alunos, lançada para uso de estudantes em 2022.

Hoje, a plataforma já é usada por 240 mil alunos para corrigir redações, e também por professores de 30 escolas do Centro Paula Souza, rede pública de ensino técnico do Estado de São Paulo, e cerca de 120 instituições de ensino ao todo, entre públicas e privadas, incluindo outros estados.

O algoritmo é constantemente atualizado com as mudanças no padrão de correção do exame federal e com novos temas de redação: atualmente, a plataforma conta com mais de 1.400.

“Achei que os professores de língua portuguesa teriam uma resistência muito grande. Foi o contrário, porque é um trabalho muito exaustivo e eles queriam uma ferramenta para auxiliar”, diz.

Planos de aula e exercícios

No ritmo atual de evolução da IA, não parece muito distante o dia em que algumas das atividades que mais consomem tempo de professores, como corrigir provas ou montar listas de exercícios manualmente, ficarão ultrapassadas.

É a projeção feita por Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovações do Grupo Arco Educação, dos sistemas de ensino Positivo, SAS e COC. O grupo tem desde 2024 uma parceria com a Open AI, criadora do Chat GPT, para desenvolver ferramentas com base nas necessidades levantadas pelos professores.

“Mesmo com a tecnologia, o professor e a escola têm papéis fundamentais. O professor está no centro do processo, é ele que está no dia a dia com o aluno”, diz Celedônio, que também é professor de matemática.

Além da correção de questões dissertativas, a tecnologia co-criada está em fase de testes nos colégios do grupo para adaptar conteúdos para alunos com deficiência e na elaboração de planos de aula personalizados. Outras frentes devem entrar em operação até o ano que vem.

O papel do professor na implantação da IA nas escolas também é enfatizado por Bruno Pavan, diretor Nacional de Governo da Microsoft no Brasil. A empresa de tecnologia trabalha atualmente com dezenas de clientes da área de educação, desenvolvendo ferramentas de acordo com as necessidades dos docentes.

No caso do Sesi-SP, o recurso criado pela Microsoft foi um tutor virtual que permite aos alunos tirar dúvidas e realizar trilhas de aprendizagem para se aprofundar em um conteúdo.

“Ajuda bastante. Em vez de ficar esperando o próximo dia para tirar dúvidas, você tira em casa”, diz Noêmi Teixeira Marchesi, aluna do 2º ano do ensino médio da Escola Sesi de São José dos Campos.

Segundo a estudante, a ferramenta também ajuda na revisão. “Às vezes, pego umas questões de vestibular e, se percebo que está um pouquinho mais complexo e não aprendi a matéria ainda, eu jogo na Leia e ela me explica”, diz.

Com a restrição do uso do celular nas escolas, as instituições procuram reconfigurar o uso da tecnologia nas salas de aula com finalidade pedagógica e de acessibilidade, permitido pela lei federal que entrou em vigor no início do ano.

Dá para confiar na IA?

As ferramentas desenvolvidas pela Open AI para o Grupo Arco são baseadas na IA generativa, que cria novos conteúdos identificando padrões em dados existentes. Para evitar que o algoritmo “alucine”, apresentando informações equivocadas, as plataformas se limitam aos dados do material didático do grupo e à base nacional curricular. Isso impede que a IA recorra a fontes externas e não confiáveis.

Já o Cria, usado no Centro Paula Souza, é treinado especificamente para corrigir redações por meio de outro sistema, o aprendizado de máquina. Segundo Cíntia Pinho, isso torna a ferramenta mais especializada do que as de IA generativa, mas “nenhuma IA é perfeita”.

Uma das estratégias para aumentar a confiabilidade da tecnologia é a validação dos professores. Quando utiliza o Cria, o aluno recebe uma nota (com base nos critérios de correção do Enem ou de outras provas) para a redação e marcações feitas pela IA. Após realizar as correções necessárias, envia o texto para o professor.

Para Cíntia, o feedback imediato otimiza o treino da redação e também torna os alunos mais críticos, muitas vezes contestando as correções apresentadas pela IA.

Nem todos os colégios, porém, têm “braço” para validar todas as redações que passam pela plataforma. Isso costuma ser mais comum nas instituições privadas, onde há professores dedicados exclusivamente à redação como disciplina.

A partir de 2029, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) passará a avaliar a alfabetização midiática e em inteligência artificial dos jovens, medindo seu entendimento sobre o funcionamento e os impactos éticos do uso das ferramentas digitais.

Segundo Ademar Celedônio, diretor de ensino do Grupo Arco, alcançar essa alfabetização de forma mais ampla no Brasil ainda é um desafio tanto para alunos quanto para professores. “Isso é uma coisa que a gente precisa trabalhar internamente, essa literacia, para que não se confie cegamente (na IA)”, diz.

Capacitar seus dirigentes e professores deve ser o primeiro passo adotado pelas escolas, segundo a especialista em inteligência artificial e professora da PUC-SP Dora Kaufman. “Sem essa capacitação, não tem como assumir o papel de ensinar a IA, com a IA e para a IA”, afirma.

Esse treinamento não significa tornar todos desenvolvedores da tecnologia, mas familiarizá-los com a lógica e os fundamentos dela.

Outra preocupação levantada pelas escolas diz respeito à segurança dos dados dos alunos. Para adaptar enunciados de acordo com transtornos de aprendizagem e outras dificuldades apresentadas pelos alunos, a ferramenta precisa ser alimentada com dados sensíveis, como informações do médico.

“A gente tem um compromisso muito forte com a LGPD. O professor precisa saber não só da lei, mas do uso responsável com aquele aluno, até onde vai a questão da privacidade e onde não deve ter divulgação (de dados sensíveis)”, diz o diretor de ensino e inovações do Grupo Arco Educação.


FONTE: Estadão
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