Os protestos estudantis que tomaram as ruas da França podem ser o início de uma crise social e política mais ampla, com reflexos em outros países europeus até 2027. A avaliação é do professor de Relações Internacionais da FAAP, FGV e IDP Vinícius Rodrigues Vieira, em entrevista ao WW.
Para o especialista, as manifestações vão além das reivindicações relacionadas à infraestrutura e aos investimentos nas escolas. Ele avalia que o movimento ocorre em meio a uma combinação de fatores econômicos e geopolíticos que pode ampliar a insatisfação da população.
“Nós temos aqui o prenúncio, a antecipação daquilo que talvez seja a tempestade perfeita, não apenas da França, mas da Europa em 2027”, afirmou.
Segundo Vinícius Rodrigues Vieira, as dificuldades relacionadas ao fornecimento de petróleo árabe também contribuem para agravar o cenário europeu. Na avaliação do professor, os ataques dos Houthis à Arábia Saudita têm aumentado as dificuldades no abastecimento de energia para países da Europa.
Diante da situação, o presidente francês Emmanuel Macron convocou líderes de partidos de oposição, entre eles Marine Le Pen, para discutir o cenário.
O professor também aponta que o aumento dos gastos com defesa pressiona as contas públicas dos países europeus. Com a necessidade de destinar mais recursos ao setor militar, governos podem ser obrigados a reduzir investimentos em áreas tradicionalmente associadas ao Estado de bem-estar social, como educação.
“A conta não fecha em função das novas circunstâncias em que principalmente a Europa vai ter de disponibilizar mais gastos para sua própria defesa”, explicou.
Esse cenário pode ampliar o descontentamento de setores da população que consideram os serviços públicos e a proteção social conquistas consolidadas.
A combinação entre pressão econômica, insatisfação social e aumento dos gastos públicos também pode influenciar a disputa presidencial francesa de 2027.
Na avaliação do especialista, setores da esquerda radical tentam aproveitar as manifestações para ampliar sua influência política. Ele considera possível que uma candidatura de extrema esquerda ganhe força e dispute o Palácio do Eliseu contra uma candidatura de direita.
“Podemos ter aí uma alternativa radical de esquerda contra uma alternativa radical de direita disputando o Palácio do Eliseu em abril ou maio do ano que vem”, afirmou.
Vieira também citou projeções que atualmente apontariam vantagem de Marine Le Pen em um eventual segundo turno contra um candidato ligado ao campo governista. No entanto, segundo o professor, a intensificação dos protestos e a evolução do cenário social podem alterar a configuração da disputa e abrir espaço para novas forças políticas.